☕🍷O efeito fama
Fazendo malabarismo num mundo invertido
☕🍷 Edição 09.26
✏️ Carta da Juliana
Hoje a nossa conversa será diferente, porque a semana mal começou e uma sensação estranha está pairando.
Preciso de um tempo, um café com leite e um bolinho para poder colocar a cabeça no lugar.
Pegue o seu café para acompanhar e pensar comigo!
☕🍷 Vamos por partes!
Vocês sabem que eu trabalho com enoturismo privado aqui na região da Borgonha. E eu seleciono as vinícolas com quem eu trabalho pela qualidade do vinho e qualidade de atendimento. O atendimento pode ser com o dono, mas se ele trata mal ou não explica nada, ou faz cara feia para o cliente, eu não volto lá. E o local pode ser lindo, ter um super atendimento, mas se o vinho não tem qualidade, eu também não volto lá. E soma-se ainda o fator dificuldade máxima: qual vinícola recebe visitas.
☕🍷 Visitas na Borgonha
Há 20 anos atrás era mais fácil visitar vários produtores da Borgonha. Os vinhos não se vendiam assim tão facilmente, logo ter pessoas interessadas (que geralmente eram europeus de países próximos e alguns poucos americanos) em provar e comprar os vinhos em suas viagens era um bom negócio. Mas principalmente o efeito comunicação era o que mais valia a pena.
Estas pessoas chegavam em casa e contavam mil histórias de como foram recebidas pelo produtor(a), como escutaram as histórias sem entender uma palavra em francês, mas tudo estava valendo. A mágica foi feita e o vinho se tornava algo mítico e logo seus amigos queriam comprar a garrafa e visitar a vinícola. A lenda era criada e a venda seguia um caminho perpétuo.
Hoje em dia a produção do vinho em volume continua a mesma, a fama dos vinhos da Borgonha aumentou juntamente com a demanda. Tanto de compras de lojistas, restaurantes e importadores, quanto de visitantes que agora vêm de toda parte do mundo! O que fazer? Os produtores pararam de receber os visitantes, senão não sobra vinho para vender e, principalmente, não sobra tempo para trabalhar; o produtor ficaria o dia todo somente recebendo grupos.
☕🍷 Malabarismo
Eu faço um malabarismo para encontrar pequenos produtores que aceitam receber, saibam receber e que o vinho tenha qualidade. E por isso eu trabalho com poucos e fiéis produtores que ficam felizes em nos receber semana após semana. Alguns deles eu somente posso levar em alguns períodos do ano, outros somente depois das 17h, outros conseguem ser mais flexíveis.
E vale a pena. O cliente sai daqui feliz, satisfeito, encantado e MUITOS retornam. Ou seja, dá certo.
☕🍷 Parte frustante
Hoje algumas vinícolas que não recebiam me ligam pedindo para eu levar os meus clientes. Até aí tudo bem. Todo mundo está em crise e o produtor precisa vender vinhos para pagar a conta no final do mês. O que me deixa frustrada é quando eu faço uma visita para rever ou conhecer o local e os vinhos, e o produtor me pergunta: “quanto que seus clientes compram de vinho? Porque se eles não comprarem um mínimo de 6 garrafas não vale a pena para mim.”
Quando este tipo de pergunta surge, a minha resposta é: “muito obrigada pela visita.” E eu não volto mais lá.
Eu não obrigo ninguém a comprar nada e muito menos quantidade. Eu entendo que o produtor precisa vender, mas pedir isso é absurdo. Aposto que o produtor nunca fez uma viagem de 11 horas num avião com várias garrafas de vinho na mala, sem saber se vão chegar inteiras ou não e com receio de passar pela aduana. Porque despachar pelo correio ou Fedex ou DHL para o Brasil é impossível.
Se o cliente gostar do vinho, ele compra. E compra a quantidade que quiser. E tem cliente que não gosta de carregar peso e mesmo amando o vinho ele não compra, ele paga a degustação e fica feliz. E está tudo bem.
Outra parte do meu trabalho é proteger o meu cliente de situações como essa.
☕🍷 O efeito fama
E o meu trabalho com enoturismo privado não se restringe a explicar os vinhos, a história, descrever tudo, mas também indicar outros lugares para visitar e restaurantes.
Na Borgonha os restaurantes ficam super famosos e, como faturam bem durante a semana, é NORMAL fecharem aos finais de semana. Isso até hoje eu acho super estranho: no final de semana o restaurante é fechado. A lógica? O dono do restaurante também quer curtir o sábado e domingo. E ele pode, porque fatura bem a semana toda. E está tudo bem, porque existem alternativas e o pessoal da restauração trata bem os clientes.
Agora, o ruim é quando a fama de um restaurante sobe à cabeça dos funcionários e eles tratam mal os clientes já no pedido de reserva. Quando este tipo de situação acontece comigo eu também não volto mais lá. Eles não precisam da minha reserva e eu não vou levar meus clientes, que atravessaram um oceano, que estão de férias, super felizes para serem atendidos num lugar famoso, mas com a probabilidade de serem maltratados.
☕🍷 Mundo invertido
Eu fiquei pensando: que mundo invertido é esse que, antes de visitar um local, você tem que anunciar o quanto você vai comprar, porque se comprar somente uma unidade ou nenhuma você não é bem-vindo? E que lugares são esses que tratam mal a pessoa pela reserva, somente porque ela enviou perguntas?
E pensar que essas experiências não foram em lugares luxuosos, porque nesses lugares o atendimento é IMPECÁVEL. Eu já tive algumas poucas oportunidades de frequentar lugares luxuosos e pessoas de extrema riqueza, e a educação e gentileza de todos eram algo marcante.
☕🍷 Romanée-Conti por 650 mil dólares
No final de semana passado aconteceu um leilão nos Estados Unidos organizado pela empresa Acker Wines e uma garrafa de Romanée-Conti 1945, saída diretamente da cave de um único dono, o Robert Drouhin, da família Drouhin da Borgonha, foi vendida para um sedento comprador pelo valor de 650.000,00 dólares!!
O valor final da compra, com frete, taxas e seguro, ficou em 812 mil dólares. O comprador ninguém sabe quem é. Se ele vai beber, ninguém sabe. Mas o que é certo é que este vinho, feito logo no ano do término da Segunda Guerra Mundial e antes que as videiras fossem replantadas por causa do avanço da praga da filoxera, é algo extremamente raro. É como se fosse uma joia da coroa da rainha ou um quadro do Leonardo Da Vinci. O nível é esse. O valor também.
Só a venda já é algo surreal. Saber que teve uma concorrência a este ponto é impressionante. O valor final ficou 17 vezes acima do valor estimado pela casa de leilão. Realmente pegou todo mundo de surpresa. E eu postei isso no meu Instagram. Vocês sabem que a minha conta é pequena, então eu me assustei com a repercussão de visualização e com o tipo de comentários.
As pessoas que exigem ou tratam o serviço de modo absurdo são amigas de muitas pessoas nos comentários. Teve um comentário dizendo que a venda de valor astronômico da garrafa era a causa da guerra que está acontecendo (????). A maioria falando de lavagem de dinheiro. Eu acho que, como houve tanta investigação no Brasil de lavagem de dinheiro, o pessoal entendeu como faz e agora eles acham que tudo é isso. Imaginem que este leilão é extremamente visado e cheio de regras, com vários fiscais e auditores atestando a segurança financeira da transação.
☕🍷 Falta de visão
Esta semana o sentimento de falta de visão é que está pairando. O mundo é muito maior que o nosso bairro e hábitos. Por isso que é bom a gente ler, viajar, ir a museus, conhecer a história, ler biografias; tudo isso nos ajuda a entender melhor o que está lá fora.
☕🍷 Da Cave da Juliana
Eu provei este vinho recentemente na companhia de agradáveis pessoas, num restaurante em que você se sente abraçado por toda a equipe.
No nariz eu reconheci o estilo do Domaine Georges Mugneret-Gibourg. Como eu reconheci? Provei inúmeras vezes vários vinhos do Domaine, mas sempre atenta ao que degustadores melhores que eu e com mais experiência diziam. E com isso eu não decorei, mas eu entendi o estilo do vinho.
Eu errei a denominação. Achei que era um Bourgogne e era um vinho Village Vosne-Romanée, mas o interessante foi saber o porquê achei que era um vinho regional. Geralmente os vinhos regionais são menos concentrados e mais curtos em boca. O que era o caso deste vinho, mas eu não levei em consideração o ano. Recentemente na Borgonha tivemos safras mais frias e complicadas como a 2021 e 2024. A safra 2021 é de vinhos mais sérios e austeros e a de 2024 de vinhos mais magros. E ambas têm menos concentração que as demais safras, que foram de anos solares, muita concentração, muita fruta e densidade. Como eu não pensei na safra, eu fiquei logo na denominação Bourgogne regional e não lembrei que poderia ser um Village de 2021.
Foi um gostoso erro que eu apreciei a cada gota.
Este é um super vinho, que vale a pena ser degustado em grandes ocasiões. Este Domaine tem uma alta reputação aqui na Borgonha. Quando jovens os vinhos são marcados pelos bons aromas do barril, mas quando mais velhos esses aromas estão bem suavizados e somente dão sustentação ao vinho.
☕🍷 Na semana que vem
Obrigada pela leitura deste relato do mundo invertido. Foram dias estranhos, com exigências absurdas, um clima de desespero e a única coisa que eu quero é prestar um serviço maravilhoso para que as pessoas descansem, curtem, aproveitem a região.
Na semana que vem eu vou contar um pouco como eu me preparo para uma degustação profissional e algumas experiências recentes e bem legais que eu tive!
Ju!


